Caravelas de Minha Vida
É noite lá fora. Estou aquecido e aconchegado
-Meu bem, vamos dormir... apenas concordo com um leve balançar de cabeça.
Apaga-se o tremeluzir da televisão. Forma-se a sinfonia, quase silenciosa, das noites tranqüilas. O cansaço emborca meu corpo e faz pesar minhas pálpebras.
Suspiro enfadonhado e observo os pingos na janela. De repente, um vulto! Quem ou o quê ?... Coração acelerado, sobresalto. Penso nas crianças. Penso em minha esposa, já no quarto. Penso no vulto lá fora. Quase paralisado fixo a figura e descubro: sou eu mesmo! Apenas um reflexo tênue, uma cópia semi-apagada do original. Aliviado e encorajado, me aproximo e olho profundamente dentro de seus olhos e percebo uma imensidão escura sem fim. Então ele me pergunta:
-Quem é você?
-Quem? Eu? Ham... como assim? Difícil responder assim, de repente! retruco surpreso.
-Quem é você? repete calmamente.
-Bem... sou tantos... sou homem, marido, pai, filho, irmão, amigo, empresário, cidadão... sou você!
-Sabe do que estou falando... Ele insiste. Eu hesito.
-Então vou explicar melhor. - Estufando o peito orgulhosamente eu continuo. - Sinto-me como um comandante de caravelas. São as caravelas da minha vida, perdidas na imensidão do mar dos acontecimentos, às vezes sereno, porém constantemente tempestuoso. Ao meu redor, pode se ver um horizonte que não se alcança. Misterioso, aterrador e fascinante. Os ventos me levam por rumos não escolhidos. Bravamente, iço velas, mexo e remexo o leme da minha embarcação. Tenho a sensação de conduzi-la na direção certa. Possuo no meu ser o espírito desbravador dos descobridores e a sede de aventura... Existem aqueles que preferem navegar por rotas já conhecidas, bem mapeadas. Fazem uma trajetória em que já se sabe qual o desfecho. Mas, eu prefiro o risco de novas águas, de terras virgens não descobertas, de sabores não experimentados, dos perigos não previstos...
Ele me olha nos olhos. Impossível fugir-lhe, fingir-lhe ou esconder-lhe a verdade, e desfere impiedosamente:
-Tem sido mesmo assim? Sinceramente?
Abaixo os olhos e um suspiro desalentado me escapa peito afora. Atravessa-me a alma a gélida certeza do vazio, da desesperança e do medo. Foram-se embora o espírito desbravador, o comandante convicto e as terras virgens... restaram-me apenas as malditas rotas já mapeadas, pelas quais, na realidade, tenho navegado. São como provas sujas e irrefutáveis de uma realidade utópica. Mas, não ficarei derrotado!
-Não realmente. Tem um caminho bem planejado. Nem sempre com as bonanças e aventuranças de uma vida intrépida, mesmo assim com valiosas descobertas e grandes recompensas.Estou fazendo minha história e deixando meu legado.
Ele apenas me olha piedosamente. Como se estivesse acima das paixões humanas. O que são "meus sonhos" para "ele"? É um duelo sem vencedores. Apenas, afasto-me lentamente, deixando-lhe com estas indagações. Vejo-o desaparecer nas sombras. Deixo-lhe, também, o ônus das respostas. Que os filosófos façam delas instrumento de exercício.
Agora já é tarde e devo dormir. Amanhã, ao afastar das brumas, ao clarear do sol, no dissipar das dúvidas, tomarei nas mãos, novamente, o leme da minha vida e navegarei rumo ao futuro. Quem sabe lá encontrarei minhas respostas?
-Boa noite.